Terça-feira, 8 de novembro de 2016 às 7:42 em Mundo
Campanha chega ao fim marcada por ódio entre Hillary e Trump

Nós contra eles. Este foi o mote da eleição presidencial americana, que termina nesta terça-feira com a votação que determinará quem entre Hillary Clinton e Donald Trump vai ocupar a Casa Branca a partir de 20 de janeiro de 2017. Até o último minuto, os dois candidatos ampliaram as acusações, apontando o adversário como o mal a ser evitado numa maratona por cinco estados.

O ódio foi a marca da campanha, que termina com uma pequena vantagem para Hillary nas pesquisas e um certo alento para a democrata pela alta participação de latinos em estados-chave, mas com projeções apertadas na avaliação da votação em cada estado, que é o que define, na verdade, o escolhido para o cargo mais importante do mundo.

— (Hillary) Clinton é protegida por um sistema totalmente ardiloso. E agora os americanos farão justiça nas urnas amanhã (hoje). Que o establishment corrupto de Washington ouça: se vencermos, vamos drenar esse pântano — atacou Trump, na Flórida.

A democrata contra-atacou:

— Nossos valores mais cruciais estão sendo testados nesta eleição — discursou em Pittsburgh, Pensilvânia. — Temos de curar este país. Temos de reunir as pessoas, ouvir e respeitar um ao outro.

O presidente Barack Obama, grande cabo eleitoral dela que foi a três estados ontem, endossou:

— Todo o progresso que alcançamos irá pelo ralo se não ganharmos amanhã — afirmou Obama na segunda-feira, em Michigan, apelando ao medo.

O discurso divisionista e polarizado, contudo, não vai apenas influenciar a política: deixa um país com profundas feridas que, segundo os especialistas, pode viver uma fase à sombra do ódio. Uma nova onda de violência, que já dá alguns sinais de crescimento, não está descartada. E o último dia da campanha não fugiu à regra, com fortes ataques mútuos.

ATAQUES MAIS NEGATIVOS

Muitos apontam Trump, com razão, como grande responsável por este discurso segregacionista, ao se posicionar como candidato dos brancos frustrados com o país, atacando imigrantes, mexicanos e muçulmanos, principalmente. Mas Hillary Clinton também contribuiu para este cenário, apesar de seu slogan “Stronger together” (“Mais fortes juntos”): em setembro disse que grande parte dos apoiadores do republicano eram deploráveis e, num debate na fase de primárias, em outubro do ano passado, colocou os republicanos como, provavelmente, inimigos dos Estados Unidos. Sua campanha explorou o medo da vitória de Trump, demonizando o republicano.

— Os dois candidatos, seus partidos e seus apoiadores usaram os argumentos de terra arrasada, de que o vencedor acabará com tudo. As campanhas partiram para os ataques mais negativos possíveis, muitas vezes desprovidos de racionalidade — ressalta o professor David Schultz, do Departamento de Ciências Políticas da Hamline University, em Minnesota. — Eles, em especial a campanha de Trump, desencadearam racismo, sexismo e ódio que irão prejudicar os EUA interna e externamente nos próximos anos.

Mas não foi só isso. O discurso de Trump para colocar os EUA em primeiro lugar, defendendo o “americanismo” no lugar do “globalismo” fez crescer a xenofobia. A questão racial no país, ainda hoje uma mancha na sua História, entrou em baila após os ataques sangrentos de policiais contra negros. E, depois, do revide de negros contra policiais brancos.

A campanha democrata abraçou a tese do “black lives matter” (“vidas negras importam”), enquanto o republicano atacou o movimento e se engajou no “blue lives matter”, em relação ao azul dos uniformes dos oficiais nos EUA. Com isso, houve um reforço até de movimentos de supremacia branca, como a Ku Klux Klan, e de negros, como os Panteras Negras.

— Trump se aproveita da presença desses grupos de ódio, racistas, antijudeus ou antimuçulmanos nas mídias sociais e retuíta essas mensagens, sem dizer diretamente o que pensa a respeito — destaca o professor de Jornalismo Lonnie Isabel, da Universidade de Columbia.

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